Wednesday, September 26, 2012

Amigo Mim

Alguém um dia, ou outro em algum, filosofou que as pessoas nascem com características que se modificam muito pouco com o passar dos anos. Obviamente o meio que ela vive influenciaria e muito na personalidade e caráter da criatura, mas isso já seria coisa junguiana ou das pessoas da Terapia ocupacional. Como não tenho embasamento cientifico para defender ou derrubar qualquer teoria usarei como única amostra para uma pesquisa sem grandes responsabilidades, um cara que conheci chamado Mim.

Mim nasceu mudo, analfabeto e meio carequinha. Quando ele se deu conta que só ele poderia mudar a vergonha que ele sentia, mesmo no colo da mãe, tentava ler as frases dos anúncios pelas ruas. Tentava e tentava. Mim tinha apenas um grande medo que era o de nunca aprender a amarrar os seus sapatinhos, aquela coisa de dar um laço nos cadarços era uma coisa do além e Mim achava que nunca aprenderia. Depois de vários fracassos, Mim conseguiu amarrar os sapatos, ler, falar e dirigir. Mim roubava o carro da mãe ou do pai para dar umas voltas, mais tarde comprou os dele. Mim teve uma moto também, coisa que deu para o Mim uma espécie de prazer por sentir o vento mexendo com as suas mechas deixando para trás aquela condição vergonhosa de ser analfabeto e meio careca.

Mim ficou mais velho e mudou de país. Já estava completamente careca e virou analfabeto de novo, os sapatos ele ainda sabia amarrar, mas tudo o que ele havia aprendido na vida inteira  foi como se jogassem num lixo qualquer. Mim começou a ler tudo o que via pela frente, se uma vez tinha dado certo teria que dar de novo. Pelo que sei, Mim fez tudo o que pode e conseguiu não sentir a mesma vergonha que tinha quando ainda era um bebê desdentado. Ele hoje consegue falar, ler, escrever e tem um carro. A direção do carro dele fica no lado direito, as mudanças são feitas com a mão esquerda e ele sempre tem que andar na contra mão. Quando um carro da polícia passa por perto, Mim acha que esta fazendo alguma coisa errada, como se ainda não tivesse habilitação e tivesse roubado o carro do pai. Gosto muito do meu amigo Mim. 

Tuesday, September 04, 2012

Dos anjos

Num cantinho o  violão. A dona foi embora sem demonstrar nenhum sentimento pelo instrumento. Eu agora terei que postergar minha cremação. O dinheiro estava contado e a dona do violão gastou todinho. Me resta agora viver mais um monte para juntar de novo a grana, que vida difícil! Acho que ela veio por ordem dos chefes anjos. Nunca tinha antes pensado na possibilidade de ter um anjo de hóspede como agora tive. Plumas de bondade pairando pelos ares, foi ótimo! Amor é um sentimento completamente simples.

Sunday, August 05, 2012

O velho e o escritor

Seria eu bobinho ou nem tanto. "O velho e o mar" me ajudou muito nessa dúvida. Sou e bastante. Tropecei no fininho livro num super mercado. Comprei a coisa e fui dar uma olhada antes de dormir. Não consegui parar. Quem teria escrito aquelas linhas e o que estaria pensando aquela pessoa enquanto escrevia aquelas ricas letras? Gente que fala muito ou escreve muitas linhas sobre o que pensa não faz diferença para o mundo. A camada de ozônio agradeceria e para quem ainda quer ter uma vida decente também.

Saturday, August 04, 2012

A espanhola e o escocês

A espanhola foi uma amigona. Fazíamos fofocas-comentários sobre outros ( das criaturas do mal, evidentemente. ) em portunhol ou espanholês na frente deles e assim levávamos, nos divertindo, a vidinha das sextas-feiras. Ela provocava todos, falava o que pensava sempre e usava umas roupas de acordo com essa filosofia de vida. A Amélia era casada com quem amava, feliz com a vida que tinha, tudo no lugar e inteligente. O inglês, que se dizia escocês, era o oposto. Gordinho, baixinho, careca com barba, feio e louco. Fiquei amigo dele por acaso, poucos foram, ele lia tudo de todos. Brigamos algumas vezes mas depois sempre teve um papo para esclarecer o problema. Ele me chamava de writer (escritor), eu sei que era deboche do debochado. Neste ano a Mel e o Stewart tiveram uma briga feia. Ele chamou ela de puta e ela o bronco de burro grosseiro. Foram os dois parar no escritório do diretor da "escolinha" esclarecer a rusga ou saber quem seria demitido. Ontem fiquei sabendo que o "escocês" foi fumar uns "baseados" com o criador. A Mel já tinha montado na Honda dela para acelerar pelo infinito, faz dois longos meses. Para que ou por que eles brigavam? O que resta é a frustração dos que não participarão das futuras discussões acaloradas. 

Wednesday, July 11, 2012

Grande figura

O The Guardian é o único jornal inglês que ainda respeito. Acho que pelo tamanho das folhas, deve ser por isso. O vô tinha um Aero Willys sempre novo, assinatura do Correio do Povo, telefone residencial e casa em Capão da Canoa. Nunca entendi porque uma pessoa com tudo isso, leria as seleções do Reader's Digest. Pior, ele me aconselhava a ler. Eu lia aquela coisa com meio olho, afinal o vô tinha recomendado. Sempre esteve estampado que o editor seria um russo camuflado, criança também é gente, né? Nuns domingos, íamos filar um churrasco convidado. A vó, sentava embaixo das parreiras de uva, e conversava bastante com a tia Angelina fazendo um crochet, sempre com um romancinho de página marcada ao lado. Nunca vi a Emma lendo seleções (acho que ela brigava com o vô, também por isso) a vó era meio de esquerda, acho. Minhas duas avós eram comunistas? Na sala principal tinha sempre um cheiro de tinta e papel novo, que vinham do correião. Eu brincava com uns botões, enquanto meu pai e uns tios disputavam umas páginas. Décadas depois, tive o privilégio de conversar com um cara que fez muito parte da história do jornalão Correio do Povo.  Depois ele virou nome de uma sala de cinema. Grandes pessoas morrem também, simples assim.

Saturday, July 07, 2012

Começo do meu Bom Fim

Quando pude escolher um lugar para morar em Porto Alegre decidi que seria numa ruazinha do Bom Fim. Muitos anos depois, quando tive uma segunda chance, fui parar numa ruela pertinho do famoso bairro londrino Camden Town. O lugar não tem nada de mais, nem de menos. Amy Winehouse circulava sempre, Morrison foi muito, Beatles e Rolling stones devem ter feito shows na enorme coisona redonda que foi um final de linha de trens. Encurtando, nessas ruas, para todas as tribos atuais ou passadas sempre esteve a venda todos os uniformes e enfeites necessários para que uns jovens pareçam idiotas assumidos. Acho triste ver umas pessoas todas furadas por piercings, corpo tatuado, vestindo uniformes e se acharem superiores. Tadinhos. Voltando a minha ruazinha do Bom fim, que saudades. O apartamento era meio novo, pude transformar a cozinha em laboratório fotográfico. Saia correndo do meu trabalho para ficar estendido numa cadeira barata de praia lendo. Só abandonava o posto depois de mais um livro lido ou capítulo terminado. Eu era novinho, tinha uma vida interminável pela frente. Quando dava uma fome muito grande, saia de casa para comer um X.  Tinha muitos lugares que o X era legal, mas tinha um na minha rua que era especial. Não lembro do nome, que pena! Tinha uma coisa de cinema que eu adorava também. O Bristol era um cineminha acoplado ao Grande cine Baltimore, que passava uns ciclos. Fui camondongo do Bristol. Quando pude, fiquei na ultima fileira, bem no meio dela, o barulho do projetor era grande, nos contudos, pude ver um filmes bem bons numa posicao gratuitamente privilegiada. O Bristol, por um bom tempo, foi o meu descanso, minha paz. 

Tuesday, July 03, 2012

Meus pais

Talvez a falta de sol esteja me fazendo mal, tenho quase certeza. Li uma coletânea de maluquices e esquisitices sobre uns escritores ídolos meus. Porque alguém se daria ao trabalho de juntar informações e escrever um longo texto com coisas sem comprovações ou importância? Povo seria povo, faríamos parte dele ou sempre faremos. Nunca me importei com a vida de quem me levou para passear pelo mundo das frases, somente aproveitei. Fui um adolescente perdidão, uns ídolos me educaram, outros fizeram acreditar que nunca saberei merda nenhuma. Tenho inveja de quem acha que sabe alguma coisa, e como tenho. Vim para Londres com uma mão na frente e a outra tapando a bunda. Uma única virtude nunca deixei escapar, diriam ser o tal de bom senso. Se meus ídolos escreviam em pé, acreditavam em horóscopo, colecionavam coisas, eram calados, tomavam todas ou se drogavam, não me interessa. Não convivi com eles, apenas tive a sorte de ser educado por umas linhas muito bem escritas. 

Sunday, July 01, 2012

Promessa

Estava eu ontem de shorts, camiseta e havaianas vendo um jogo de tênis. As cervejas bem geladas e eu compenetrado na televisão. Eis que a mulherada começou a chegar, uma de um parque e a outra de algum stress. Acharam o meu programa de sábado muito chato e começaram a bocejar. Me dei conta, desisti da minha programação e disse que iria me vestir para sairmos de casa. Detalhe importante, ainda tive que prometer que seria dócil com os garçons/etes, mesmo aqueles que "roubariam" coisas da mesa sem a nossa autorização e os que serviriam coisas geladas e ainda defenderiam os cozinheiros. Devidamente fardado, me sentei no banco traseiro do carro inventando um mantra daquelas coisas ridículas de auto-ajuda: Não vou brigar com ninguém, não vou ser grosseiro, não reclamarei de nada, aceitarei tudo na santa paz. As meninas acharam divertida a minha brincadeira e rimos bastante. Achamos uma mesa de um restaurante escolhido e ainda lendo um difícil cardápio, um garçom chega. Ele pegou o rococó dos guardanapos de algodão que estavam sobre a mesa e colocou nos nossos colos. As duas me olharam imediatamente, devem ter pensado: Xi, o velho rabugento vai ser deselegante de novo. Não fui, agradeci o cobertor não precisado e segui tentando entender o cardápio. Foi outro sabado quentinho. O: Tu me prometeu pai, não lembro se já descumpri. Acho que ainda não, e espero que nunca.


Friday, June 29, 2012

Hoje

Hoje, fazemos parte de um passado que poderá ser facilmente ignorado no futuro. História, na minha opinião, não deveria ser apenas lida ou decorada, ela poderia ser entendida como um pedaço do que hoje somos. Não pensamos assim, infelizmente não. As pessoas que viveram nos séculos passados seriam bobinhas, os "burrinhos" não conheciam eletricidade, quem diria os I (apple) isso ou aquilo? Nos acho retardados e tenho muita pena de nosco. As pessoas do futuro poderão rir da nossa sofrida vida pensando: como eles eram atrasados, como pensamos das pessoas que viveram antes do assassinado, que resolveram chamar de Redentor. Que continuemos tomando nosso gostoso Q-suco enquanto a vida anda. Depois viraremos história ignorada, como fazemos com eles hoje.

Thursday, June 28, 2012

Meu fuca

Era uma vez um menino que teve um fuca branco. Muitos anos depois e, por motivos de "força maior", foi obrigado a morar na longínqua cidade Londinium. Os fundadores da cidade usavam cavalos, no máximo "bigas turbo" de quatro cavalos bem alimentados. As ruas foram projetadas somente para estes veículos e esqueceram de prever o futuro. Políticos sempre foram burros e sempre serão. Passados dois mil anos, se vê claramente a falta de visão dos antigos governantes de Londinium. As ruas são muito estreitas, não há lugar para os carros andarem, muito menos estacionarem. Os governantes da nova Londinium resolveram dificultar ao máximo a vida de quem ainda insiste em ter um carro. Quando o infeliz acha uma vaga, ou corre correndo até uma maquininha de recolher dinheiro ou usa o mobile ( celular ). A placa do carro deve estar registrada e o cartão de crédito também, caso contrario o dono do carro em minutos estará frito, tipo bacon ao ponto. Eu, no último tempo de Brasil ouvi: Tá bem cuidado doutor!  Achei engraçado, lembrei do dia que achei uma vaguinha na Sr dos Passos em Poa, quando eu ainda era guri e tinha o fuquinha. O flanela me cobrou uns pilas e eu disse que não tinha. Ele olhou no fundo dos meus olhos e sentenciou: Chinelão.

Sunday, June 24, 2012

Felicidade

Ontem tive uma noite bem bacana. Fui convidado para ir na beira do Tâmisa num restaurante a escolher. Não estava frio e nem chovendo, por sorte nossa até então. Fui com duas pessoas muito especiais, portanto eu já estaria lucrando muito e bastante. Depois de uma caminhadinha, achamos um lugar que deveríamos ficar. Pegamos uma mesa ao ar livre perto de uma gente muito barulhenta, nos mudamos e ficamos melhor. O papo estava rolando macio e agradável, então pintou uma história de "gramática da língua portuguesa", coisa que as duas que dividiam a mesa comigo sabem e bastante. Me senti um troglo/analfa, pensei em me atirar no rio para tentar me afogar. Depois, me dei conta que as duas estavam batendo aquele papo cabeça, porque as apresentei e eu estava perto delas. Sei nada de gramática e nunca saberei. Para mim, se eu continuar a falar uma língua sem passar muita vergonha estaria cumprindo simplesmente com uma das minhas obrigações.

Saturday, June 23, 2012

Coisas de um velho

Fiquei todo feliz quando vi a espinha. Nasceu do nada trazendo minha antiga adolescência de volta. Pensei: Deveria eu fazer planos para um futuro distante? Haveriam talentos que ainda não me foram apresentados? Nada, apenas uma espinha que cresce sem muito parar. Hoje, fui na pharmácia da esquina comprar alguma "pomada de minancora" ou coisa semelhante. O menino do balcão disse: melhor perguntar para o tio pharmacêutico. O tio me disse: Tá feia a coisa, usa essa pomadinha por enquanto e assim que der, vai ver teu médico. Chegando em casa abri o potinho plástico e senti o cheirinho da tinta têmpera. Pô! tinta têmpera era a coisa que eu usava para pintar minhas obras de arte quando tinha uns cinco anos de idade. A mesma tinta que eu tentava camuflar os arranhados da gloriosa bicicletinha, que depois de qualquer chuva ficava sempre como antes. Se a espinha nao trouxe minha adolescência de volta, pelo menos me fez lembrar da linda sweet infância. 

Friday, June 22, 2012

Deusa Catarina

Moro numa cidade que o céu aparece azul quase nunca, os pássaros gorjeiam só por descuido e está sempre abarrotada de turistas. Os turistas, são facilmente identificados porque fotografam coisas óbvias e usam, na grande maioria, uma pochetezinha para esconder documentos ou algum dinheiro. Fico as vezes pensando, ver de perto o Big Ben ou o casarão que a Rainha mora seria melhor do que umas férias de verdade? Bom, agora tenho que explicar o que, para mim, seriam "férias de verdade". Para começar, quem esta escrevendo esse treco sou eu, portanto minha opinião conta e bastante. Segundo, eu trabalho aqui, portanto andar por Londres acho muito chato, tudo chato. Férias de verdade, foram umas que já tive e que um dia de novo terei. Pegar um carro e viajar uns Kms, alugar uma casa na beira da praia e fazer alguma amizade com o dono do restaurante mais próximo. Simples e sem aeroportos, apenas descansar do ano difícil. Essa ideia poderia ser aplicada para qualquer recanto do Brasil ou para qualquer cantinho do mundo, desde que Santa Catarina tivesse irmãs, ou primas. Quando estive estressado, coisa comum, queria apenas me deitar numa rede e olhar para o céu. Ouvir Bob Dylan e avistar o guri trazendo o pratinho dos camarões com a caipirinha. Depois banho de mar, com lua cheia ou não. Férias, todos precisaremos sempre.

Monday, June 18, 2012

Seren Del Grappa

Tenho muita sorte de estar existindo. Meu vô alemão, sempre foi bastante interessado em saber porque o biso dele tinha abandonado a Europa de "mala e cuia" para chegar num mato que Dom Pedro I era o presidente, descobriu quase nada. Meu vô italiano, não pude nem conhecer e menos ainda saber de alguma história, apenas me restaria supor. Meus ancestrais, acho que seriam uns caras muito pobres e sem nenhuma noção do perigo. Dois meninos com o saco cheio das vidinhas que eles estariam tendo no primeiro mundo e pensaram que não teriam nada a perder. Pegaram muita coragem e o primeiro navio disponível. Conheceram depois as suas prendas e tiveram uns filhos. Muitos e muitos anos depois, nasceu um rogeriento que achou uma fotografia da cidadezinha italiana de onde saiu o pobre triso em direção ao desconhecido Mato Grande do Sul. O gringo deveria ser meio doido, não diferente do outro maluco alemão. Acho invejável a coragem que os dois tiveram.  Graças à loucura deles,  hoje posso de uma maneira mínima tentar agradecer a minha existência. Grandes caras!

Sunday, June 17, 2012

Foi bem bom

Tinha eu um metro de idade ou quase, os bondes ainda circulavam pela rua onde minha vó morava. Ela me pedia para ir no armazém do seu Walter, que ficava numa esquina para trazer um litro de leite de garrafa ou algo que eu ainda poderia carregar. Meus olhinhos se dirigiam sempre para a outra esquina, onde ficava o cinema Orpheu. Eu era pequeno, não sabia nem o que cinema significava, apenas achava interessante a cor, design e o cheiro de mofo bom que o prédio exalava. O cinema fechou, ficou assim por muitos anos, até que reabriu com o nome de "Cine Astor" o primeiro cinema de Porto Alegre com som Dolby Stereo, ou o que isso significava. Um dos filmes que assisti no Astor, foi um que passou agora na minha english televisão, por isso a lembrança. Fomos juntos, meus pais e minha nova namorada. O filme de roteiro bem bom e história linda, seria um clássico se a trilha sonora tivesse sido melhor escolhida. Na metade do filme, pintou um cheiro ruim no ar. Minha namorada me deu uma cotovelada e disse: foi tu! eu cochichei: fiz o que? segundos depois, entendi a acusação. Terminado o filme fomos num restaurante diminuir a fome e as curiosidades, eu estava todo feliz com a coisa de poder de novo, misturar uma namorada com meus pais, foi bem legal aquele dia. A historieta daquele filme era sobre duas pessoas que se gostaram, porém sob um feitiço, nunca teriam a possibilidade de viverem os seus gostares na mesma época ou luas, como diziam os sábios índios. 

Saturday, June 16, 2012

Amigo

Nas vezes que levei o fora (pé na bunda) de alguma namorada, o meu amigo estava sempre on-line para ler meus e-mails depressivos e ainda por cima responde-los. O meu amigo é um cara brilhante, evidentemente se ele não fosse uma pessoa especial não seria meu amigo, ora pitangas!  Numa das respostas dos meus e-mails chorosos ele escreveu: "Acho legal umas coisas que escreves, porque não tentas um blog? Deveriam ser textos curtos sobre a tua vida de Londres e colocarias títulos em todos. Formato tipo coluna, entendeu?" Blog, naquela época (200 anos atrás) era uma coisa que poucos tiveram a coragem de começar. Pensei, tenho o que a perder? Moro na Inglaterra faz bastante tempo, se escrever alguma coisa errada vou ter a desculpa que esqueci da grafia ou das concordância. Muitos brasileiros que moraram menos tempo do que eu sempre usaram dessa desculpa furada por sempre escreverem mal qualquer frase, então vou nessa. Num único dia, escrevi cinco textos ruins e postei, enviei as "maravilhas" por e-mail para o meu amigo esperando algum comentário que nunca chegou. Depois, realmente comecei a esquecer umas palavras de português, então achei que seria a hora de me aventurar e escrever coisas, só para mim, no tal blog. O blog dei o nome de Londrices, e devo ao meu amigo o meu retiro, meu prazer. Quando o filme será chato, o livro óbvio e não tem jogo da seleção brasileira, me enfio no bloguinho para contar uns pedaços da minha vidota. Que saudades do querido professor Ornitorrinco!

Amor

Uns sentimentos são comprometidos com a mais profunda natureza do nosso viver. Uma das metades de mim esta longe de onde agora sou, construindo a vida e sinto enormes saudades dele sempre. A outra metade resolveu conhecer o país dos irlandeses. Ela fez tudo sozinha e simplesmente me avisou. Ontem, me sobrou apenas a simples tarefa de comprar uma mochila e me preocupar. O bom dos sentimentos bons é que eles existem. Quando chegou o transporte que a levaria  para longe de mim, ela me deu uns abrações que me deixaram muito feliz. Uma metade de mim estava contente, me senti bastante meio Rogério mesmo sendo pai dos meus grandes dois.

Dos arteiros

Moro numa catacumba que trabalhei muito para conquistar. Chove lá fora e nem está tão frio, porém tenho que secar umas roupas que a máquina lavou num aquecedor elétrico, meu grande amigo no longo inverno. Ligar o aquecimento da casa toda, faria minha catacumba virar literalmente um inferno, sou um catacumbento, mas nem por isso tenha que sofrer pelo rótulo. Literatura, que bicho é esse? Um dia fui numa exposicao de arte. Parei num quadro e um cara me perguntou: gostaste? eu disse: sim!  viste os cantos sincronizados com o meio, cada canto tem uma coisa a ver com a ideia central. Ele me disse: eu pintei o quadro, gostei muito da maneira que viste ele, não tinha pensado nele assim. Literatura pode ser a mesma viagem. Uns doidos escrevem e outros entendem elas como coisas que aconteceram ou deveriam ter acontecido.

Reverências

Alguma coisa de certo aconteceu na minha formação, ainda tenho que descobrir o que. Cento por cem das namoradas que tive miravam num espelho, que os pais brilhantes delas formaram como ideal de homem a acompanha-las pela vida. Eu era um menino, que chances tive? Um Sogro mais potente que o outro, e as filhas deles cada vez mais cobradoras das minhas atitudes, que inferno! Gastei tempo e uma fortuna com coisas ate mesmo de Jung, nunca entendi. O sogro mais querido que tive, é meu amigo ainda,  o médico de sempre preferido mesmo eu sendo pai de dois dos netos dele. Um dia perguntei: Dr Isaac, porque o senhor esta estudando alemão? Ele: porque quero ler Nietzsche no original. Eu tinha vinte e poucos anos e competia com uns caras assim, ate Freud diria que nunca foi justo. Meus dois filhos tem a sorte de ter um avo assim, estudou ate mesmo quando já sabia, aprender para ele, parece que sempre foi apenas prazer.

Sunday, June 03, 2012

Cheirinho bom

Passei na frente do Abbey Road Studios umas cinco vezes e atravessei a "faixa de segurança" somente duas, sou ridículo, mas tento não me machucar muito com esse problema. Entrar nos estúdios não resolveria nada, portanto nunca tentei. Entrar seria me decepcionar. Para começar, os equipamentos de gravação devem ser os mais modernentos da atualidade, e eu estaria buscando ver as gravadoras de fita de rolo feitas com ferro e a mesa de som de alumínio que eles provavelmente usaram para gravar as músicas que tão bem conheço, em dois ou quatro canais (tracks). Claro que, respeitando as diferenças, fui um menino de sorte, assim como Ringo foi. Eu era um destalentado que, mesmo não sendo o baterista na banda, aproveitei bastante a época para conhecer como funcionavam os estúdios profissionais e a indústria dos discos de vinil. Eu tinha 20 anos e circulava com umas camisas de seda perfumadas de gosto meio duvidoso. Depois nos trinta, usei umas gravatas. Agora apenas me dou conta do quanto já fui ridículo.

Friday, June 01, 2012

O Fog era fumaça


Começar com a palavra "não", soaria meio para baixo, então resolvi iniciar com uma qualquer e escolhi: começar. Não concordo com radicalismos (muito criativo Rogério, parabéns!), sejam eles de esquerda, centro ou direita, verdes ou fúcsias. Acho que as pessoas deveriam contribuir com o mundo, mesmo ele estando bastante torto, do que tentarem transformar o coitado exatamente naquilo que elas acreditam que ele deveria ser. Isto posto, posso agora falar do prazer que me deram algumas lareiras mesmo sabendo que uns verdes me chamariam de "assassino de galhos mofados" e os magenta gritando que eu não entenderia nada das " Frequências sincronizadas no universo".  Eu adoro lareiras, amava ficar olhando para o fogo que, além de me aquecer no inverno, me fazia pensar no presente com requintes de clareza. As lareiras em Londres foram proibidas no início dos anos sessenta. O " Fog londrino" vinha delas e das fábricas que um dia existiram. Coisas que poucos ou só os ingleses puderam ver. As praias do litoral inglês são piores do que as das Ilhas Malvinas aposto, e não bastando isso, no frio não posso nem olhar um foguinho. Que falta de sorte essa minha.

Wednesday, May 30, 2012

FTb (P&B)

Tive umas coisas que gostei muito na vida, uma Cannon FTb que comprei usada de um jornalista da Caldas Jr e um carro. O carro era um "dengue" que consegui pagar um ex sogro querido meu. No carro a Cannon tinha um lugar reservado, o porta luvas. Fui um adolescente meio atrasado no tempo, então com uns vinte e poucos anos queria ainda salvar o mundo com minhas importantíssimas fotos. Volta e meia dava umas caronas, levei pouco tempo para ler "O tempo e o Vento", mesmo assim um caroneiro me disse: Aquele livro está no banco de trás já faz um tempão! e eu: Aquele é o sétimo volume de capa parecida, o. O que teriam feito Ana Terra e Rodrigo Cambará se Erico não os tivesse inventado? Li todo o "Retrato" na recepção da minha terapeuta, eu tinha uma pastinha cheia de ideias e livros naquela minha época. Foi bacana.





Friday, May 25, 2012

Quem avisa...

Aproveitando a coisa das cinzas do vulcão que impossibilitou os aviões de cruzarem o céu de Londres um dia disse: Viram? o céu de Londres também é azul, o que deixa o coitado cinza são os milhares de aviões que cruzam por ele. Um inteligente desqualificou meu entusiasmo dizendo: Foi apenas uma coincidência, don't worry about it. Anos depois, sem ter aprendido absolutamente nada sobre a cultura inglesa e interrompendo um papo de cafézinho me aventurei: Acho uma péssima ideia que os jogos olímpicos sejam disputados em Londres no momento, os terroristas vão aprontar alguma, só não vê quem não quer. O mesmo gênio me garantiu que nada de ruim poderia acontecer, já que a polícia inglesa está bastante bem preparada. Enquanto as olimpíadas estiverem acontecendo sairei de casa apenas por descuido. Avião, trem, metrô ou ônibus nem que me paguem as passagens. Sou brasileiro, mas nem por isso eu tenha a obrigação de ser um burro desqualificado.

Saturday, May 19, 2012

Papo furado

Um dia comentei com uma amiga que mesmo achando divertido juntar umas palavras, seguidamente nada me ocorria de interessante para escrever sobre. Ela prontamente disse que conhecia um texto de um ilustre que sofria do mesmo mal e que me enviaria o tal texto por e-mail para tentar me ajudar na suposta crise. O texto começava mais ou menos assim: " A tela vazia e nenhuma palavra aparece para ser escrita, um "branco" acontecendo e blá  blá  blá ... por mais umas cinco páginas". Na última linha o gênio me deu o tiro de misericórdia escrevendo: "Quando não temos nada de interessante para escrever a coisa pode ficar bastante difícil". Estou achando que a maneira mais racional de aproveitar uns livros seria ler apenas a primeira e a última página. O miolo rechearíamos com as nossas experiências e gostos pessoais. Não sei se alguém concordaria comigo, mas eu não tenho mais tempo de vida para perder com gente que escreve muito sobre absolutamente nada.

Do livre pensar

O que conhecemos do tentar viver decentemente veio de uma história muito distante e dolorida. Se eu tentasse colocar o que estou pensando em cinco, dez ou cem mil anos atrás alguns ainda me chamariam de ridículo, tudo bem, seguro mais essa. Existem pessoas inteligentes que juram que a vida do planeta começou no ano zero, Jesus nasceu, fazer o que? Os gregos, mesmo com os vários Deuses deles, nos trouxeram grandes ideias para serem desenvolvidas, talvez as pessoas da época teriam o cérebro meio vazio, daí aparecerem tantas coisas inovadoras, sabe-se lá . A Grécia está falida de novo, algum novo império inimigo estaria surgindo ou seria apenas mais uma forma de comprovar a teoria de Darwin. Conheci dois gregos, tentei e não consegui gostar de nenhum, sinto muita vergonha de mim.

O braço traidor

Depois de anos relutando, resolvi aceitar a ideia de ir num restaurante chinês em Londres. Algo me dizia que o pão de aipim não existiria, o molho doce-azedo fosse invenção dos chineses que migraram para Porto Alegre e que o arroz com misturinhas fosse delírio meu. Como entrada serviram uma cumbuca de "mandiopã " (alguém ainda lembra disso?) com um molhinho bem bom que adorei!. Senti como se estivesse no Pagoda ou Lokun, uma boa viagem no meu tempo. As chinesas serviram o que tínhamos pedido e era muito semelhante ao que meu olfato   lembrava. Depois do jantar e uma conversa bem boa acontecendo, uma chinesa resolveu limpar a nossa mesa sem pedir licença. Fiquei de olho nela, o meu saudoso mandiopã  ela não iria subtrair, já tinha inclusive um discurso polido nas minhas mangas. Eis que vem um bracinho chinês pelas minhas costas e vai direto na cumbuquinha das minhas saudades. Minha reação foi péssima, grosseiramente disse: Não toca no meu mandiopã!





Culpas

Aprendi muito mais com os meus dois filhos do que já pude retribuir. O alemãozinho tinha uns nove anos quando me largou essa: O pai, to ralado. Tenho um sobrenome judeu e outro alemão. Minha vida pode ser meio complicada. A aliada dele, minha filha que tinha uns seis, sorrindo o sorriso destruidor de personalidades que ela ainda porta, esperou minha resposta com requintes. Lá  fui eu: Vamos um pouco mais para trás, judeu, alemão, italiano, português, francês e sabe-se lá as origens das nossas famílias, não esquenta a tua cabeça com essa coisa de sobrenomes. Lembrei da conversa com os meus dois, porque a segunda guerra deixou marcas profundas na Europa. Conheci uma única alemã que foi minha colega numas aulinhas de gramática inglesa e mais ninguém daquele país. Ela não parecia estar se sentindo confortável e eu entendi que nem poderia. Bombardear o país dos outros não deve ser uma coisa a merecer elogios. Ela não teve culpa de nada, mas o sentimento era inerente.

Sunday, May 06, 2012

Esperanças

Se eu tivesse a oportunidade de ser uma pessoa madura, teria tentado, talvez conseguido. Não deve ser fácil ser uma, fácil é reclamar, questionar, provocar ou exigir as coisas todas brilhantemente feitas ou resolvidas pelos outros. O jovem país Brasil, tem muito ainda que aprender com a história dos irmãos mais velhos. Alguns europeus (quase todos) gostariam que os seus governantes enviassem dinheiro para as suas casas pelo correio. Se eu fosse uma pessoa madura e sem querer parecer criativo perguntaria: Porque os países europeus estão quase todos na merda?

Sunday, April 15, 2012

Um túnel de algum tempo

As vezes fico calado tentando pensar umas coisas que nunca aconteceram. Tenho uma fisionomia única para visitar museus e coisas antigas, minha cara não muda muito e dialogar comigo fica meio bastante difícil. O túnel de pedestres para atravessar o Tâmisa, concluído em 1902, foi um caso desses. Construíram a coisa para que as pessoas que moravam no sul de Londres pudessem chegar para trabalhar sempre no horário previsto, muitas docas eram no norte. Na época, as mercadorias eram transportadas por barcos e Greenwich era um local de vital importância para o comércio londrino. Greenwich continua um lugar importante para o mundo, não tenho a mínima ideia do porquê. Atravessando o túnel, fiquei meio deslumbrado com o desgaste do piso, um cheiro de mofo mofado e lá pelas tantas a coisa fica diferente. Placas de ferro com parafusos enormes por uns metros. Porquê? Claro que foi uma bomba nazista que acertou o inocente e velhinho túnel. Nada nunca muda, nem mesmo a desgastada e chata "História da raça humana". (Henry Thomas deu esse nome para um maravilhoso livro que escreveu).

Saturday, April 14, 2012

Terapia urgente

Tenho alguma esperança de que já tenham inventado algum medicamento contra a rabugice que não seja o óbvio de ter que nascer de novo. Hoje fui ao cinema, no cinema está gramaticamente incorreto, entendeu ou quer que eu desenhe? Fui todo feliz assistir a um ótimo filme com uma pessoa completamente importante para mim. Escolhemos o cinema das estreias hollywoodianas para lançamentos na Europa. Caro para caramba! tudo muito bom, e o povinho? Com lugares numerados fomos agraciados com um cabeçao, o cabeçao estava na minha frente. Não bastando, o fucking cabeçao colocou um enorme casaco no espaldar de sua cadeira, o que significou encostar nas minhas pernas. Nunca vi isso em nenhum teatro, cinema ou show. Minha parceira de filme me disse: Pai respira fundo e deixa de ser rabugento. Contei até dez umas cinco vezes para saber de onde viria a criatura egocentrada. Meu rabugismo foi criado pela minha avançada idade, ou pela cidade que amamenta criaturas sem nenhuma educação ou que receberam alguma num privado iglu.

Thursday, April 12, 2012

Dos diferentes

Quando me sinto desambientado na Europa, penso que deve haver alguma coisa errada nisso. Numa páscoa, fui convidado para um barbecue (churras). Fiquei todo entusiasmado com a futura próxima festança. Pensei em manufaturar "pão à rogeriana" e carregar ingredientes para umas inspiradoras caipirinhas, mas achei mais prudente apenas levar uma garrafa de um bom tinto. Fui recebido com muita alegria pela anfitriôa e pelos convidados que lá estavam. Como velho menino gaúcho, sabia que meu lugar seria ao lado do anfitrião na frente da churrasqueira, ajudando-o na árdua tarefa de olhar o fogo e lembrar de alguma gracinha criativa. Não consegui identificar o que havia em cima das grelhas e mesmo com receio perguntei o que era. Meu "colega" disse orgulhoso: são coelhos pelas metades o que dá um sabor sensacional. Me arrependi de não ter levado os meus pães, almocei umas cenouras e afoguei minhas culpas na tal garrafa de vinho.

Saturday, April 07, 2012

Minha princesa

Cada um mostra seus sentimentos da maneira que pode ou consegue. Minha filha está em Londres faz uma semana, levei o bichinho em muitos lugares que conheço, mostrei coisas que já muito vi e comentei sobre umas coisas que já sabia. A menina me deu uns "bailes" bacanas. Não preciso mais recorrer ao dicionário de inglês quando me aperto, a guria sabe a tradução das palavras esquecidas, ou nunca sabidas e não me sinto diminuído, apenas muito orgulhoso. Hoje ela me disse um presente lindo: Pai, se eu já sentia orgulho de ti, hoje vendo de verdade as coisas que escrevias sobre como foi o começo da tua vida londrina, sinto ainda mais. Lindo isso, linda ela.

Sunday, March 25, 2012

Fia das

Não deveria, mas estou sentindo um pouco de pena. Os caras maltratam e maltrataram milhares de pessoas para manter uma riqueza que nunca realmente existiu. Eles ainda tem uma Rainha, Rainha do que, para quem? A agricultura nunca deu lucros, a ilha é muito pequena para isso. Grandes industrias aconteceram, porém as montanhas de regras disso e daquilo, acabaram com o charmoso "Made in England"; nada mais é produzido na Inglaterra. Eles estão começando a entender que o país deles está mal economicamente, e querem que os governantes resolvam o problema enquanto eles saboreiam um chá conversando futilidades. Eles não gostam de trabalhar, sempre pensam que um "ser inferior"poderia fazer a coisa no lugar deles. Bem feito! me contradizendo só um pouquinho.

Friday, March 23, 2012

Mancadas

Cometi poucas gafes e portanto lembro de quase todas. No avião da primeira vinda, perguntei para a senhora que estava ao meu lado se ela era a Inglaterra (Are you England?). A pessoa rindo muito balançou a mão direita feito um aviãozinho desgovernado e com a cabeça gesticulou que sim. Outra vez, teria que encontrar umas pessoas perto de uma tal de torre do relógio ( Clock Tower) em Crouch End. Perguntei para o motorista do ônibus se ele passaria perto da Watch Tower ( Torre do relógio de pulso) o cara gargalhando fez sinal de positivo com um polegar, resolvi fechar a minha boca e estudar bastante a nova língua. Adiantou para as gafes daqui, teriam outras me esperando na terra mãe. No curso que tive que fazer para renovar a minha importante carteira de motorista a "profi" falou de um ciclone que apareceu em Santa Catarina nos idos 2000 e poucos. Eu disse: sério? Meus coleguinhas me olharam como se eu fosse um alien. Noutra feita, estava eu perdido em Porto Alegre e a bateria do meu celular morreu. Perguntei para a primeira pessoa disponível onde eu poderia comprar umas fichas telefônicas. Ele, com pena de mim acho, foi sincero dizendo: Acho difícil, tenta naquela revistaria do outro lado da rua. Outra vez, fui comprar um treco que custava dois reais e poucos centavos. Dei uma nota de dois e uma moeda de um real que é muito parecida com a moeda de dois pounds britânicos. Reclamei: Me deste o troco errado, te dei uma cédula de dois e uma moeda de dois reais. A guria retrucou: Senhor, moeda de dois reais não existe! Fiquei sabendo que a nota de um pila está fora de circulação por eu ser uma pessoa ainda bem relacionada. Os jornais de Londres não comentam nada sobre coisas positivas do Brasil, apenas do goleiro preso, favelas, trafico e a corrupção que tantos tem apenas inveja de não terem a chance de participar. O mundo sempre foi redondo e sempre será .

Tuesday, March 20, 2012

Nobres

Respeito muito quem gosta de gatos. Os gatos são seres que servem para dar algum calor para quem gosta deles. Os cachorros tem sentimentos claros e os mostram sempre. Os cães nos cuidam, entram feito malucos numa briga desleal para apenas salvar as nossas vidas, custando as vezes as vidinhas deles. Um dia a minha Rott mais querida, foi brigar com quatro Fila para me proteger. A mesma cadela que depois de um tempo sem eu ter podido estar perto dela me ignorou. Cheguei perto e dei um abraço apertado, ela não deu muita importância, olhava para a lua. Fui falar com meu amigo nosso vet que estava por perto e ele me disse: Ela tá magoada contigo porque ela pensa que a abandonaste. Peguei uma bola de tennis e voltei para tentar resolver a bronca. A coisa tava feia para o meu lado. Enquanto estava abraçado naquele pescoção cheio de músculos, pude ver umas gotas de mágoa que irrigavam aqueles olhinhos pretos. Depois de uns papos sérios, joguei a bolinha lomba abaixo e ela foi procurar pra me trazer, como nos velhos tempos. Amo eles, amava ela.

Saturday, March 17, 2012

Um dia

Gostaria muito de ter a chance de passar uns dias numa vila inglesa, daquelas de apenas nove ruas. Falaria o necessário e ouviria o que pudesse. Meus lençois seriam muito floriados e o café da manhã teria bacon, ovos fritos, um tomate queimado, duas fatias de pão molenga para serem regados ao molho de feijões brancos enlatados. Depois do copo de café solúvel que levaria, estaria mais do que na hora de conhecer a vila. Umas casas iguais com diferentes números, a igrejinha que eu entraria de costas para poder sair correndo sem perder nada de velocidade e o pub. No pub pediria a primeira cerveja, os de barba e os de bigode com chapéus ficariam me cuidando. Na segunda cerveja um deles me perguntaria: vens de onde? Londres é uma cidade grande, nasceste onde? Eu: Brasil. O chapeludo: Sim! Pelé, carnaval, favelas. Um de barba me salvaria do papo furado dizendo: deixa esse aí dizer bobagens sozinho. Este vilarejo ainda existe porque uma nazi-bomba explodiu a duzentos metros daqui. Prazer em te conhecer Rogério. Qual é teu sobrenome? Sairia correndo para a igreja mesmo sem ter feito amizade com o pastor. Deus tem que proteger a todos, não importando se acreditamos nele ou não, a coisa estaria feia para o meu lado.

Friday, March 16, 2012

Eu tento

Fui daqueles alunos que escolhiam um lugar no meio das salas de aula. Não queria perder muito do que os professores diziam e nem as ótimas piadas da galera da última fileira. Minhas impressões sobre o mundinho que vivo hoje certamente são influenciadas pela posição da minha pequena mesa de estudante. Outro fator completamente importante é que sou um brasileiro que ouviu e leu a vida inteira que os países europeus fazem parte de um tal de primeiro mundo. Se o Brasil faz parte de um terceiro, onde andaria o segundo? Já cansei de ler o "terra arrasada" dos brasileiros: nada está certo e nem nunca será, sempre seremos roubados, os políticos não prestam ( só no Brasil, jura?) e o papo depreciativo continua até eu parar de querer saber. A ladainha dos britânicos é oposta: Somos os bons e sempre seremos. Não temos uma única indústria, porque deixamos elas fecharem. Vamos todos juntos reabrir nossas indústrias, oferecer ao mundo produtos de qualidade britânica e reaquecer a economia que deixamos ao vento enquanto tomávamos uns importantes chás. A leitura que faço, daquele lugar da metade da sala de aula, é que gente que teve benefícios de colônias escravizadas, não sabe muito bem o que é trabalhar a sério. Eu não consigo elogiar meus amigos ingleses, vou continuar tentando, quem sabe um dia consiga.

Sunday, March 11, 2012

Mortes

Nessa semana foi oficializado que o Brasil ultrapassou o Reino Unido num ranking fajuto de economia. Grande coisa, nosso país precisa alcançar coisas muito mais importantes para depois poder dar uma vida melhor a todos os seus habitantes. Curiosamente Harry estava em visita e, mais interessante ainda foi Morrissey avisar: "Ele veio pegar o dinheiro de vocês!", quem não percebeu isso? Moro em Londres o tempo suficiente para entender óbvios gritantes. Lá no café, sempre no café, um viking disse para outro: " Quando invadimos um país, e antes de abandonarmos os coitados, temos que ter certeza de que a democracia será plenamente instaurada. Um inglês iluminado, abandonando o lugar, resmunga: "Para de dizer asneiras!", estávamos apenas querendo o petróleo deles!" Uns ingleses estão evoluindo, graças ao bom menino Jesus.

Friday, March 09, 2012

Uma rua

Tive um amigo que com 24 anos de idade teve o primeiro filho. Casou com a guria mais linda do bairro e achou que também poderia se livrar das garras prussianas do meu avô. A vó era um pouco mais light, ensinava as secretárias a fazer as massas frescas da maneira italiana. O vô era um cara meio ruim de negócio, sempre me deu chances, mas para os filhos dele nunca. Tratava os guris meio mal, eu dizia: deixa o pai e os tios em paz. Ele: filhinho, fica na tua que pode sobrar pra ti. Eu: qual é a tua vô? Eu era mimado por ele, me emprestava as ferramentas pra eu brincar, porque sabia que voltariam todinhas limpas e no lugar certinho. Depois que fiz 22 anos fiquei muito amigo do filho do meu avô mais importante pra mim. Tínhamos grandes afinidades, fazíamos enormes fofocas e sabíamos que poderíamos confiar um no outro. Hoje ele é apenas o nome de uma rua de Porto Alegre. Eu conheci muito bem quem eu andava com o braço agarrado no pescoço do guri de cabelos brancos em Londres. Ele gostaria de estar vivo, nome de rua seria apenas amenizar o sofrimento de um menino agora muito triste. Ser o nome de uma rua, ele odiaria!

Tuesday, March 06, 2012

Das frases

Minhas frasotas são tendenciosas e tentam narrar apenas uma versão do que vi, vejo, sinto ou senti. Por muitos parques tentei, nuns lugares bacanas também. Achei o meu mim aqui em casa, simples assim.

Monday, March 05, 2012

Gosto é gosto

Liguei a empoeirada televisão e assisti a pedacinhos de dois programas. No de carros, falavam sobre alternativas de substituir o petróleo como única fonte da energia automotiva. O cocô das vaquinhas e bois surgiu como a melhor, transformando a coisa em gás. Álcool da cana de açucar, não foi sequer mencionado. Se o álcool para movimentar motores é ecologicamente bacana, ou economicamente correto, não sei. Sei que funciona, tive dois carros a álcool e achava eles bem bons. No segundo programa, um de jantares para convidados entendidos, o anfitrião inventou de oferecer uma entrada "brasileira" que seria: salsichões cozidos ao molho de chuchu, com umas cenouras por cima. Os convidados acharam meio sem gosto a coisa, mas não reclamaram. Afinal, os brasileiros vivem numa enorme floresta e tem todo o tempo do mundo para descobrir legumes e frutas selvagens.

Wednesday, February 29, 2012

Para o "poetinha"

As vezes penso, por obviedade existiria, porém fico na dúvida se a máxima escrita (dita) como definitiva por uma pessoa de outrora seja verdadeira. Na minha vida londrina, o que penso ou digo é colocado facilmente numa vala comum, lixo. Então que papo furado é esse de existência? Vivo agora numa cidade que ninguém tem idéia do que a palavra ternura significa, saudades muito menos. Tentar explicar o que Vinicius queria dizer com: "Ai, que saudade... Ipanema era só felicidade. Era como se o amor doesse em paz...". Seria perda de tempo e encurtar a suposta existência que ainda me restaria.

Friday, February 24, 2012

Não seria?

A expressão "né ?" pode ser traduzida em quatro versões identificando o nível sócio-econômico dos ingleses facilmente. Os que nunca foram ou nem gostariam de ter frequentado uma escola usam em todas as frases o "innit ?". As pessoas que frequentaram escolas e fazem parte do povo pensante falam de uma forma aglutinada "isn't it ?". Os que se acham apenas superiores falam "isn't it ?" articulando todas as letras e, os ricos soletram pausadamente um "is it not ?". As quatro versões inglesas para o "né ?" querem apenas a aprovação de quem está ouvindo o que estaria sendo falado, nada mais do que isso. No Reino Unido denotaria também a classe social do ser falante. Sempre foi assim e sempre será.

Saturday, February 18, 2012

Papo furado

A imprensa noticiou que não existem documentos que comprovem que Charles Chaplin tenha nascido no sul de Londres e que ele, para azar ainda maior, não seria Inglês. E daí ? Que diferença isso fez ou faria? Os cartórios ou tabelionatos ingleses seriam todos completamente isentos de qualquer tipo de manipulação, sério? Quem teve a oportunidade de ouvir Chaplin falando deve ter percebido algum sotaque. Seria um sotaque francês, alemão, espanhol, árabe, de quem viveu duas guerras mundiais e teria uns tios judeus, ou talvez um maligno sotaque comunista? A Imprensa que cresça e apareça. Os que acreditam nela que continuem confiando ou sendo clientes vorazes dos traficantes dos morros do Rio de Janeiro.

Friday, February 17, 2012

Meu tio

Tentando ser politicamente correto e justo comigo mesmo, vejo o planeta Terra habitado por seres sem muita noção de quase nada. Todos somos aparentemente parecidos, uns acham que são burros e outros tem certeza que seriam diferenciados. Uma das várias traduções de alguma filosofada de Nietzsche rezaria: " O antônimo do certo não é o errado, é a certeza".

Sunday, February 12, 2012

Talento desperdiçado

"Na cadeia voadora de volta a Londres" caiu nos meus olhos o documentário sobre a vida de Wilson Simonal. Assisti com um interesse incomum, afinal o que teria acontecido com o cantor de enormes sucessos que morreu como "um negro de cor" comum? Miele o descreveu como o maior cantor brasileiro de todos os tempos, desafiando quem não concordasse, "quem seria então?" Jaguar dizendo que na época pisavam sobre ovos para não serem presos ou mortos, então que o Pasquim deveria ser perdoado pelas piadas e medos. Ingenuidade, falta de cultura e desinformação acabaram com a carreira e vida de uma pessoa. Chico Anizio diz: quem foi delatado por ele, alguém conhece um? Wilson Simonal fez parte dos programas de televisão que eu assistia num sofá, meio que dormindo. J.Silvestre, Flávio Cavalcanti, Clube dos Artistas e Globo de Ouro fizeram parte da minha instrução primeira, então como não ser retardado naquele pais que eu vivia. Não sei a quantas andava a burrice de um pobre que virou rico naqueles verdes anos cor de chumbo.

Saturday, February 11, 2012

Pensando

As palmeiras, sabiás e as aves que não gorjeariam como na minha terra, poderiam enaltecer qualquer lugar que fosse digno da poesia, todos são. Cada terra tem suas palmeiras, sabiás, flores e aves próprias. Bastaria nascermos nela para sentirmos o orgulho que cada pedaço de chão, desse pequeno mundo, pode nos causar.


Monday, February 06, 2012

Plantas da vó

"Um buquê de scheffleras, deverias escrever algo sobre". Disse minha mãe ao me apresentar um punhado de folhas do lindo arbusto. Filho obediente como sempre fui, resolvi tentar. Uma vez nos anos mil oitocentos e poucos fui criança. Estava eu com meus batmans, super-homens, bola e meus carrinhos, nada além disso me interessava. Minha vó tinha um jardineiro que cuidava de todo aquele montão de plantas no casarão da praia que me impediam de brincar com a minha bola sem ficar de castigo, tipo não ganhar o sorvete diário, pipoca, ou qualquer outra coisa. Um dia, o vô chegou de Porto Alegre e uma schefflerona estava no meio da estradinha do carro quebrando o espelho retrovisor ( foi barbeiragem dele, naquela época só tinha o espelho da esquerda) ele não ficou feliz. Foi até a garagem, pegou um machado e foi podar a planta. Minha vó implorava para ele não assassinar o arbusto e eu feliz da vida pensava: isso mesmo vô! passa o facão nessas plantas todas, quero mais é brincar com minha bola e poder andar de roda gigante depois no parque de diversões. As crianças, da minha época, não tinham muita consciência ecológica e os adultos entendiam absolutamente nada de crianças.

Tuesday, January 31, 2012

Pila na praia

O grito de “30 ovo por cinco pila” me chamou muito a atenção. Vinha de um caminhão quase se desmanchando, porém os alto-falantes e o microfone deveriam ser de muito boa qualidade, pois o som estava alto e claro. A questão do ovo da frase estar no solitário singular foi apenas engraçado. O Pila estaria tecnicamente correto segundo os linguistas gaudérios, mesmo assim morri de rir da falta do "s" na mercadoria e no preço. Tentei descobrir por que chamamos os nossos Pilas de Pila, achei uma história sem confirmações, assim como a do nome da moeda britânica "Pound", portanto cultura inútil ainda a agregar. Pode ser bobagem minha, mas eu gosto de ouvir o "s" dos pilas.

Sunday, January 29, 2012

Misterioso

O barulho que o mar traz sempre me fez sentir insignificante. Sabe-se lá o que assopra ou até mesmo urra. O mar tem a imensa capacidade de entoar minha vontade de saber o porquê de vários receios meus.

Wednesday, January 25, 2012

Longônada

Vou-me embora para Longônada, não sou amigo do Rei e muito menos do Seu Teló. A dona Luiza não conhece, pois estava em outro lugar e, desesperadamente, espero que nunca vá. Lá, BB teve vida longa e já faleceu, BBB sobreviveria uma semana ou outra. Longônada, mesmo sendo uma aventura, nunca misturaria salas com privadas. Vou-me embora para Longônada, aqui não sou feliz.

Monday, January 23, 2012

Dos puxa-puxas e sonhos com mumu

Como parte dos planos de uma vingancinha do inverno Londrino, rumei para a casa da praia. Viria sozinho me deixando completamente livre para que eu inventasse os rituais que bem entendesse. Fui colocar gasolina num posto da minha juventude e peguei a Free Way. A estrada parecia estar boa, mas cheia de motoristas tentando mostrar que seriam bons pilotos ultrapassando carros pelas três pistas, me senti inseguro e com vergonha de fazer parte da grande família gaúcha. Fiquei sempre longe deles, suicídio nunca será a minha onda. Chegando numa bifurcação, resolvi continuar pela estrada velha, queria lembrar da minha infância achando uns barracos que vendiam rapaduras muito duras e enormes roscas de polvilho. Nunca gostei muito dos quitutes, mas elas faziam parte das minhas saudades e resolvi procurar para dar de presente na minha chegada. Não encontrei os barracos e nem as coisas. Lá pelas tantas, procurando Morro Alto para virar à direita, me deparei com um túnel moderno, iluminado e interminável. Percebi que estava completamente perdido na estradinha que conhecia tão bem. A minha ausência modificou tudo e bastante. Meio desnorteado e triste, achei de novo o caminho da minha história. A estradinha de acesso à praia agora está completamente cheia de comércios. Quando passei pelo ex solitário pórtico de Capão da Canoa, avistei uma metrópole e me dei conta do quanto minha juventude tinha ficado antiga. Minha amargura foi diminuída quando encontrei minha irmã, ela disse: "Eu já peguei aquele túnel e me senti uma idiota tendo que andar vários quilômetros desnecessários, nem esquenta. Vamos fazer um churras ou um carreteiro? A caipira vai sair em minutos". A mãe e a minha sobrinha devem ter pensado: Bá, os dois vão começar a rir e conversar para todo o sempre.

Wednesday, January 18, 2012

Papelada trolha

Se amadurecimento significa resignação, vou ser um velho imaturo e muito ranzinza. Sonho sempre em andar pelas ruas de Porto Alegre que já andei (meu amigo talentoso que perdoe a pobritude da alusão). Meus sonhos sonham apenas com os capítulos bons das coisas, esquecendo ou negando os outros que não foram tão bons assim. Quando o sonho passa a ser realidade, percebo todo o eufemismo trouxa que uso para me enganar. As calçadas das ruas que sempre andei são armadilhas para as pessoas tropeçarem, as tintas das faixas de segurança só posso ver quando estou usando óculos de leitura. Os carros não param nos sinais vermelhos à noite pelo receio de serem assaltados, me avisaram. Paro em todos, ando quando a luz verde aparece, o certo seria assim. Ressuscitei uma carteira falecida. Nela cabe: CPF, identidade, titulo de eleitor, CNH, cartão do banco, IPVA, pilas, fotos, documentos do carro, moedas e o certificado de reservista. Faz nove anos que ando com dois cartões e nunca me pediram para nada. Já fui internado num hospital inglês, tive alta e não precisei mostrar nenhum documento para entrar ou poder sair. Hoje, fui num cartório fazer uma declaração de residência, num banco pagar uma taxa e tive que escrever e assinar uma declaração de que eu não seria analfabeto. Estava querendo renovar a minha autorização para dirigir em outros países pela terceira vez, depois de ter sido obrigado a fazer um curso de três dias sobre a nova legislação de trânsito na outra vez que renovei minha habilitação brasileira. No dia que me pedirem o número do CPF para que possam me vender um cacetinho em alguma padaria, nunca mais sonharei.

Democracia já!

Era uma vez um jovem bonitão, muito inteligente e sem nenhum cabelo que foi fazer cursos de especialização na Inglaterra. Como praticamente todos os espelhos europeus foram dados aos índios brasileiros como forma de conseguirem algumas vantagens, não sobrou quase nenhum para que nosso herói pudesse deixar de ser tão humilde. A falta de espelhos também contribuiu muito para que ele iniciasse uma carreira meio particular: a de mentiroso sincero. Como as rugas não puderam ser vistas e a rabugice não identificada, nosso amigo continuou firme nas suas tenras convicções: No verão faz calor e no inverno faz frio, nas lancherias ou restaurantes sempre teria uma mostardinha salvadora, e às 19:00 horas tem que ter a hora do Brasil. A Inglaterra não tem a hora dela e eu sinto muita falta. A hora do Brasil é um programa que me transporta aos anos 1930 e me faz pensar que vivo no meio do mato. Acho muito democrático quando na metade da coisa que estou ouvindo um diz: Em Brasília, 19:00 horas: O senador xarlenston Orilando de Xiruí quer descobrir quem anda roubando a merenda do grupo escolar da rua que ele cuida. A deputada estadual de Pexerequê, Elen Terezinha, vai elaborar uma emenda ao projeto mais água para quem ainda gosta de tomar banho no nordeste. Eu gosto muito do programa imposto, espero que nunca acabem com a raça dele. No entanto, se resolverem acabar, eu teria uns requintes de crueldade bem bons para sugerir.

Sunday, January 15, 2012

Oportunidade

Entrei num ônibus voador, sentei numa pedra parecida com uma poltrona e esperei. A pedra não reclinava, a janela não abria e o viajante que estava a minha esquerda dormia e dormia, ficando complicado pular a criatura para refrescar meu sentante. O monitorzinho que me cabia trancou, não conseguia nem desligar o infeliz. Quase chegando, senti os primeiros pingos gelados no peito. Depois de outros, descobri que estava chovendo em mim, apenas em mim. O ônibus tinha ar condicionado e estava descarregando as mágoas em alguém, tudo bem. Cheguei na rodoviária 40 graus, fiz a baldeação necessária e peguei um micro até meu destino final. Calor esperado, sol de brigadeiro, céu de brigadiano e eu feliz por dois curtos dias. A falta de chuva por um longo período estava trazendo sérios problemas para as pessoas da região. Eles não sabiam que um casal de nuvens pretas que se amam, haviam se escondido nas minhas sacolas. Chove sem parar já faz três dias. Sol e estrelas consigo ver apenas pela televisão, de novo. Tive a ideia de me oferecer para morar em qualquer deserto, assim o que pareceu ser um enorme azar pode ser transformado numa belíssima oportunidade de ganhar uma grana preta com as minhas nuvens.

Friday, January 06, 2012

Um amigo meu

Quando fui apresentado ao Sr Wilfred Mansfield, fiquei meio sem ter o que dizer. Ele me olhando com desconfianças, afinal eu seria um brasileiro da casa dos comuns, nunca se sabe o tipo. Quando finalmente chegamos num parque de Londres, começamos nossa caminhada. Tivemos uns bons monólogos, até o inglês ficar mais íntimo, mais amigo. O afeto e a amizade apareceram facilmente. Quem seria eu, para merecer a confiança dele? Num caminho desses, o inglês sentiu cheiro de comida e correu na direção de umas pessoas que faziam um pic nic. Eu com vergonha da atitude, corri desesperadamente atrás para tentar impedir o roubo e a comilança das comidas. O Wilfred tem só um objetivo na nobre vida, comer tudo o que ele puder, enquanto ela dure. Ele é um nobre inglês, magro, limpo e bonito. Único defeito seria o de ser um grave ladrão de comidas.

Thursday, January 05, 2012

Cabelos brancos

Depois de já ter feito uma viagem longa e chata, chegar em Porto Alegre e achar os que me esperavam era muito fácil. Uma baixinha de cabelos brancos perto de um senhor bem mais alto, com os cabelos também descoloridos, eram uma fácil referência. Na última vez que cheguei no aeroporto eles não estavam, e ninguém me esperava, por motivos completamente entendidos. A vó já tinha viajado, e meu pai estava pensando em cometer o mesmo erro. Dias depois, cometeu. Os de cabeça branca, eram as minhas referências. Perdi eles e as tais. A baixinha esperta, me fez acompanha-la por uns 8 anos na procissão de Sta Rita que ela gostava. Eu ia, porque amava ela, e ela sabia disso. O mais alto de cabeça branca, foi meu melhor amigo. Nunca me deu colher de chá em nada, nem eu para ele. Quando pude começar a ganhar dele no xadrez, ganhei umas, uns empates, até ele se recusar a jogar de novo. Eu ria da cara dele. A vó, e o pai foram meus ídolos para tudo. To sem, perdi, que merda!

Wednesday, January 04, 2012

Natal

Depois que ganhei o "Autorama do Emerson Fittipaldi", o dia do Natal começou a ficar cada vez mais sem graça. Para ser mais claro, cada vez mais triste. O pinheirinho cheio de "enfeites", e lampadinhas piscantes por todos os lugares, começaram a me incomodar. Minha rabugice teria nascido no Natal de 1800 e poucos, quando eu tinha uns 11 anos de idade. O presépio montado ao pé da árvore começou o problema, e cantar a música "Noite feliz", naquele tom deprimido, me fizeram um adolescente rebelde. Porque? para que? e os pobres? quem inventou isso? quem ganha? quem perde? qual é? Da rebeldia, nasceu um sentimento nobre, que uns denominariam: pena de quem gosta do teatro. Passados mais de duzentos anos, meu irmão me telefonou, todos os anos comete o mesmo erro, me intimando para um almojanta de Natal. Gosto do guri, abandonei a minha amada caverna, e fui na coisa de Natal. Fui comprar um presente, na loja que compro presentes pra ele sempre, e a loja estava fechada, dia 25 de dezembro nada funciona. Peguei um vinho bom e fui ver o mano. Na casa dele, tinha árvore, presente para mim, e entendimentos. Meu inglês é pobre, o português dele também, então falamos uma coisa pelas metades. Adorei quando voltei do lavabo e ele apontou para onde eu estava vindo, e mudo, começou a rir muito. Eu perguntei se ele estava bem. Ele: eu não lembrei como te dizer em português, não deixa a porta aberta. Foi engraçado, ele é toda a minha grande família aqui.

Sunday, January 01, 2012

Uns

Nem faz tanto tempo assim. Umas pessoas tinham apenas umas folhas de papel, canetas que seguidamente precisavam de tinta e umas velas que teriam que ser trocadas. Mesmo com todas essas dificuldades, escreveram coisas lindas, marcantes. As abreviaturas seriam coisa de um futuro ainda muito distante, não ainda imaginado. As vogais e consoantes deveriam sempre andar juntas, afinal fazem parte de uma familia chamada Palavras. Imagino, na minha ingenuidade, que para desenhar a última vogal de uma frase, parágrafo ou livro, algum grande escritor tenha que ter trocado uma vela, colocado tinta na caneta, ou ter inventado algo para apagar um errinho anteriormente cometido. Hj td fkou + fcil, blz?

Thursday, December 29, 2011

Dois meus dois

Saudades de mim, de mais ninguém me faz tão triste. Mesmo daqueles que sempre e tanto amei. Morar longe dói, me faz parecer distante, coisa que nunca fui, nunca serei. Que saudades dos que me fizeram sentir um simples e feliz mim.

Monday, December 26, 2011

Good news

Apelidos deveriam existir apenas para salientarem as qualidades das pessoas, e não o contrário. A exceção que lembro, foi de um cara que conheci. Ele tinha uma cabeça grande e redonda, o sobrenome era Oliveira, então passou a ser chamado de azeitona. O azeitona era um cara inteligente, admitiu que o apelido era óbviamente criativo, nunca reclamou. Porque sou pequeno e careca, um gringo gordo começou a querer me chamar de franguinho da Sadia. O Polentão, ainda é conhecido por, e está levando uma vida bem bacana em Porto Alegre. Meus novos amigos, tentam seguidamente me chamar de Mister Favela. Para começar não é engraçado e não faz nenhum sentido, portanto não cola. Vou parar de escrever verdades sobre os ingleses, minha mãe pediu por estar preocupada, e também por eles estarem muito indignados com os brasileiros hoje. As favelas, bundas grandes e traficantes, passaram deles num ranking de economia elaborado por economistas nativos. O Brasil não apenas ultrapassou a Inglaterra, ultrapassou o Reino Unido, que é formado por quatro países. Faz anos que escrevo sobre as contradições que convivo, hoje, me senti aliviado, menos solitário e menos louco.

Saturday, December 24, 2011

Sabedores

Não gosto do dia 24 de Dezembro. Seria um dia como qualquer outro se não tivessem inventado, para alguns ganharem uns dinheiros extras, os presentes dos imaginados Reis magos. Moro numa cidade velha, cheia de pessoas antigas. Bom senso ainda seria uma novidade para esse pedaço de mundinho. Precisava comprar apenas um presente, e fui a luta. Pensei no que comprar, onde, achei o endereço na Internet e fui tranquilo. Me ralei. A rua existe, morei perto. Os números dos prédios não fazem o menor sentido. Porque? As milhas poderiam ser a explicação mais óbvia, mas não são. A melhor que achei foi que depois do incêndio de 1666, as casas numeradas seriam as que teriam seguro contra futuros incêndios. As outras não mereceriam nem números. Por isso agora em 2011, me senti de novo um oligofrênico. Procurava pelo numero 50. Estava na frente do 35, atravessei a rua e me deparei com o 467. Nem os números pares ou ímpares fazem sentido. Eles acham que são muito inteligentes, porque? qual foi a causa, ou de quais?

Wednesday, December 21, 2011

Chegando

Depois de muitos abraços húmidos, sai de Porto Alegre rumo ao mundo de tantas antigas histórias. No avião, cometi minha primeira e penúltima gafe. Perguntei para a mulher que falava inglês com os comissários e estava sentada do meu lado. Disse, caprichando no sotaque: Are you england? ( Você é a Inglaterra?) a pessoa levantou um polegar e riu muito. Me dei conta que eu estava frito, me senti um analfabeto imediatamente, e nem tinha chegado no lugar ainda. Decidi na hora virar mudo, até qualquer dia do futuro. Cheguei, não entendia ninguém, e nada do que estava escrito nas coisas. Eu, que era sabedor do verbo to be, vocabulário mais ou menos, disse pra mim mesmo: cara, tu te ralou feio agora. Ajudado por um mapa, consegui pegar os metrôs, ônibus e a caminhada que teria que fazer até chegar no meu primeiro destino em Londres, sempre ajudado por uma mala enorme, muito pesada e uma menor para me deixar mais aliviado. No outro dia, meu irmão me disse que tinha comprado passsagens para eu ir à Paris, passar uns dias com ele. Eu deveria definitivamente ir, já que estava tão perto. Fui, adivinhei o caminho para outro aeroporto, me senti perdido um monte de vezes, mas cheguei. Me senti muito mais analfabeto ainda em Paris, coisa que não me ajudou muito para a vida. No caminho da casa dele, que era no centro, avistei uma torre. Disse: aquela torre é a que estou pensando? Ele: deve ser, amanhã vamos lá. Fomos na parte mais alta. Depois brincamos de nos perdermos em Montmartre, ruas pequeninhas e uma cerveja num bar quase caindo de tão antigo. Dois dias ou mais depois, peço para lavar umas roupas, coloquei as coisas na máquina do guri e depois pensei, onde secar? Coloquei umas cordas nas janelas frontais do apartamento do cara no centro de Paris e estendi as minhas roupas. Quando ele chegou em casa, me olhou com mesclas de pena e ódio. Só agora entendo os sentimentos confusos. Amei aqueles dias.

Tuesday, December 20, 2011

TPM

Eu na maior amargura, minha mãe preocupada com minha aparência e eu com o que iria enfrentar. Ela lavou e passou, meio na obriga, roupas que acabei nunca mais usando. Enfiou num malão, camisas de linho, gravatas e uns blazers que eu ainda tinha. Meu pai, tinha me dado de presente de grego uma mala enorme com rodas novas, para que eu transportasse todas as expectativas deles. Carregar aquela mala, foi a maior demostração de carinho que pude dar para eles, a coisa era muito grande e pesada. O que de maior valor estava nela eram as fotografias dos meus filhotes, das outras pessoas tão importantes quanto, dois livros que eu roubei e o meu preferido. O preferido, é uma longa história da raça humana, quem leu sabe do que estou falando. Os que roubei foram um mini dicionário de portugues do professor Luft, e um pequeninho de inglês-português. Eu estava indo para um mato, precisava ter como me defender, uso os dois livros roubados todos os dias. O crime compensou. A dona, quando descobriu o roubo ficou braba comigo, a mesma que passou camisas a ferro. Nunca entendi a coisa.

Sunday, December 18, 2011

Xadrez

Tive duas avós meio marketeiras. Na primeira vez que voltei ao Brasil em férias, estava ainda aprendendo coisas com a que me abandonou por último, e aproveitei bastante. Era meu aniversário, dia de sol na praia, a figurinha olha para mim e diz: filho, pega este dinheirinho e compra uma coisa que gostes. Peguei as notas e me dei conta da enrascada que a vó tinha me enfiado. Comprar o que? do que eu gosto? do que preciso? Uma nuvenzinha preta apareceu a um metro sobre minha cabeça. Eu tinha que resolver a encrenca, afinal o dinheiro era da pensão dela, eu teria que gostar do presente, lembrar dela, uma coisa original, criativa, carinhosa. Eu deveria estar com uma cara de catacumba, porque meu pai disse: o deprimido, preciso dar umas voltas e não to afim de dirigir, vamos? Disse: To nessa. Fomos numa ferragem, e o papo fluindo, madeireira, banco, padaria, super mercado e esqueci do problema que a vó tinha me arrumado por uns minutos. Quando lembrei, disse: pai, a vó me ralou, ela me deu uns pilas pra eu comprar alguma coisa que eu queira e eu não sei o que fazer com isso. Ele: levei muitos anos para gostar da minha sogra, sabes o quanto gosto dela agora, mas ela sempre foi terrível. Nisso, apareceu pelo vidro do carro, um vendedor de redes. Comprei, pela metade do preço, a rede mais linda que possa existir. Como sempre, meu pai tinha entendido minhas entrelinhas. Depois que compramos a rede, precisavamos mostrar para a sogra dele o resultado da minha penúria resolvida. Mostrada, sentamos na nossa mesinha de perder no xadrez tranquilos e felizes. Era meu aniversário. A vó ainda hoje vive dentro de mim, e também pendurada na minha casa. Adorava ela.

Friday, December 16, 2011

Das fraldas

Meu dia foi curioso. Descobri, googleing, que um senhor baiano que se diz chamar Deus da Silva, publica as pobrices que escrevo no blog Espinho no dedo ll. O Sr Deus não me pediu autorização para coisa alguma, e ainda me colocou no time B, qual seria a dele? Os jornais londrinos de hoje gritaram que o marido da Carla Bruni, acha que o primeiro-ministro britânico esta sendo muito infantil tratando assuntos tão sérios como brincadeiras na seríssima crise europeia. Faz tempo que escrevo sobre o que Sarcozy desabafou, pelo menos um vivente concordou comigo. Foi bem bom ler as notícias. Quanto ao Sr Deus da Silva, que me coloque na primeira divisão ou que, pelo menos, me escreva dizendo porque eu teria sido rebaixado.

Thursday, December 15, 2011

Espelho meu

Ontem, me dei conta do quanto minha alma ainda é pequena. No descanso do cafézinho, o turco e o húngaro falavam sobre a crise da europa. Os dois preocupados, na verdade, com a validade dos passaportes deles falando, falando. Eu, apenas tomando meu café, dando uma descansada e me preparando para as coisas que deveria fazer depois. O húngaro então largou: O Reino Unido tem receio de sair da união europeia porque a França é o país com a melhor produtividade agrícola da atualidade. Uma entidade baixou e eu disse: cara, para de dizer besteiras, a França? olha o tamanho daquilo. Meio envergonhado com a reação primitiva, fui dar uma pesquisada nas coisas de ranking da produção de alimentos. Achei um e encaminhei para o turco. O site dizia que os USA são os mais produtivos, seguidos por todos os países da união europeia e em terceira posição estaria o Brasil. No outro cafézinho da tarde perguntei para o turco, recebeste o link que te enviei? ele: então o Brasil é o segundo maior produtor de alimentos da atualidade pra ser mais justo. Um sangue vergonhoso subiu para a minha careca e então disse: tem que ser, já viste em algum mapa o tamanho do Brasil? Meu pais sempre foi grande, minha alma que deveria crescer um pouco. Um dia vai, espero.